Era uma noite, que parecia aos olhos dos membros restantes da trupe que era composta antes por Dani, Dudu, Digs, Rosa, Ego, Hilário, Dud, Bizo, Ariti, Mauro, Nine, Greta, Lucy, Beppe, Eu(Fejão) e a gata da Dani, uma simples noite, sem nada inusitado. Sentados na frente da residência de Dani Porongoni, já metade de nossos companheiros haviam partido para suas respectivas residências... e restavam somente alguns dos bravos cavaleiros que desafiam o ar da noite, sem nenhum medo em seus corações. Ariti e Dudu tocavam violão, Another Brick in the Wall pt. 2 para ser mais exato, Eu, parado ao lado dos dois, brincava com a gata, enquanto o restante sentava mais ao lado, conversando sobre assuntos mundanos. Quando de repente, surgindo das sombras, ouve-se uma voz dizendo “Com licença, vocês precisam de um professor de viola?”. Todos exaltaram-se e viraram para olhar quem seria o autor de tal fala. Eis que, ali parado, com uma camisa surrada e calça social, tênis azul, um bigode ralo contrastando com a pele escura, carregando um violão nas costas, e conduzindo a pé sua bicicleta, estaria um sujeito que em breve se revelaria um exímio violeiro.
Todos entreolharam-se, porém Beppe já foi gritando “PODE PASSAR!!!”, ao que, com um enorme sorriso estampado no rosto, o Violeiro Misterioso obedeceu, adentrando a residência e já tirando seu violão das costas e exclamando:
- Esse, - disse ele, abrindo o fecho e puxando o violão da capa. – é o violão da marca melhor que tem! Janine! – O que deveria ser um Giannini legítimo.
E jogou no colo de Mauro, dizendo “Tó! Olha!”. Após ser analisado, o violeiro se aproximou de Ariti, que estava com o violão de Dani na mão, e se sentou ao seu lado no muro, dizendo:
- Rapaz, eu vi que tu gosta de uma viola. Então, vamos aqui, me acompanha na música. – E puxou seu violão. Porém, com um pesar em seu coração, notou que a primeira corda havia arrebentado... Desesperado, pediu ajuda, uma simples corda E, mas foi em vão... ninguém possuía uma corda sobrando. Então, foi com uma tristeza visível em seus olhos, que ele pegou o violão oferecido por Ariti. E começou a tocar.
A princípio, foi uma música deveras sem-sal, que não fez jus a seu talento, até então, adormecido. De repente, uma voz é ouvida, ao longe, e o Violeiro se vira, para conversar. Ele então grita:
- Ô, CHEGA AÍ! SE ELES SÃO MEUS AMIGO, SÃO TEUS AMIGO TAMBÉM!
E assim surgiu seu companheiro, com uma garrafa de cerveja na mão, e ficou lá um tempo.
Assim, após algumas outras músicas também não muito valorizadas, finalmente, sim, foi a hora. Digs pediu:
- Toca uma música aí pra nós.
O Violeiro deu uma olhada astuta, e anunciou:
- Sim, então ta, gurizada, eu vou fazer uma música pra vocês. Vou fazer uma música aí.
E começou, um ritmo totalmente contagiante, a animação logo se tornou visível no recinto. Começou a cantoria:
Há tempo que estou cantando
Um beijo dessa boca fria
Eu fico arrepiado
Quando me vejo passar na rua
[2x]
**REFRÃO**
Você não sabe o quanto eu te quero, Menina Bonita
Se você me quiser, ficarei contigo, por toda esta vida. [2x]
Na segunda vez que o verso foi repetido, todos fizeram um coro, seguido de palmas, fato que iluminou o rosto do violeiro com um sorriso de orelha a orelha. Então, aproveitando o visível sucesso da música, ele emendou outra, que coincidentemente possuía o mesmo ritmo da primeira.
O nosso é amor
É que nem o daquele homem
E daquela mulé
Se você quer vir curtir comigo
A novela das oito
Só não peça beijo
Estou de olho na tela
Sha laiá laiá laiá
Foi sucesso total, e suas habilidades de violeiro foram finalmente mostradas. Porém, o Amigo Cervejeiro teve de ir embora, após notar que sua cerveja havia acabado. Ariti, então, foi até o violeiro, ainda estupefato, atingido em cheio pela música, e perguntou:
- Como o senhor se chama?
Ele encarou o jovem, e finalmente disse, apertando-lhe a mão.
- Amigo, me chamam de Artista.
Depois disso, ele tocou, novamente a pedidos de Digs, um Zezé Di Camargo E Luciano, em seus tempos áureos de boteco, anunciando coisas de tempos em tempos, como que ele se ofereceria para ser nosso professor de viola, pois precisávamos fazer festa, e nada melhor que uma viola e um violeiro para isso. Lembrou-nos também, de tempos de sua infância, na qual seu instrumento musical era uma ripa de madeira com cordas de pesca, e que segundo ele, fazia “Aquela coisa, aquela coisa” que nós fazíamos agora. Porém, não era isso que os ali presentes queriam, e, a pedidos, ele tocou novamente o single Menina Bonita, anunciando que tocaria trinta vezes, se fosse preciso, fato que alegrou o coração de todos. Neste meio tempo, Beppe e Digs resolveram passear
Novamente, Ariti foi dar os parabéns ao Artista, porém, ao fazer isso, teve uma surpresa.
- Olha, meus parabéns, Seu... Artista, não? – Disse ele, apertando mãos.
Porém, o Artista o encarou, e com uma cara despreocupada, disse.
- Se tu acha... – O que causou acesso de risos a todos ali presentes.
Com a garganta seca de tanto cantar, o Artista pediu a Ariti um copo de sua bebida, porém, após saber que era um simples refrigerante, logo desanimou-se, porém, para não desaponta-lo, Beppe(já de volta) e Ariti foram até a cozinha, e voltaram com copo de um líquido transparente, que duvidosamente era água. Para surpresa de todos, o Artista tomou um gole deveras grande, coisa que teria causado no mínimo caretas e arrepios em qualquer ser, em seu estado sóbrio pelo menos, porém, ele simplesmente fez uma pausa, pensou, se virou, e perguntou:
- Hmm... é Vodka?
Ariti com um sorriso muito matreiro respondeu:
- Velho Barreiro
A alegria de Artista não pode ser contida diante tal fato, e ele exclamou, um enorme sorriso em seu rosto:
- ORA, MAS ESSE É DOS BÃO! – E bebericou novamente seu copo.
Animado e revigorado, tocou novamente, a pedidos, o sucesso Menina Bonita/Novela das 8, que já em sua segunda vez, foi ainda mais emocionante e bem recebida por todos.
Porém, o que ele falou a seguir preocupou a todos.
- Olha, gurizada, eu gostei de vocês, vocês gostam de música, e se vocês gostam de música, vocês gostam de mim! Então, podem me dizer, se vocês querem que eu manheça aqui com vocês, eu manheço com vocês!
Assim, ele tocou novamente um outro repertório, e anunciou a mesma coisa, o que alarmou ainda mais a todos, pois ele visivelmente não estava em seu estado totalmente sóbrio, e, portanto, suas atitudes eram totalmente imprevisíveis.
Então, em coro todos aclamaram pela saideira, que não era nada menos do que Menina Bonita/Novela das 8. E, apesar de ter anunciado que esse não era nem o início, apenas um aquecimento, para a noite que ele pretendia seguir, ele tocou. Esta foi uma versão realmente digna de um final de show, ao maior estilo Beatles, Hey Jude, todos cantaram, em meio ao coro e palmas, a letra já decorada, com um refrão que ficou marcado na memória e coração de todos.
Mas enganou-se quem pensou que este era o fim, Artista ainda revelou que seu repertório não era de se fazer chacota, e tocou a, então, música final, que infelizmente não chegou nem perto do sucesso estratosférico de Menina Bonita.
Assim, anunciando que no dia seguinte(um Domingo) era dia de trabalho, todos se levantaram, e foram cumprimentando o Artista, que, desiludido, pediu somente que deixassem-no terminar seu Velho Barreiro, pedido que não pode ser negado.
Então, em frente ao portão da casa, Ariti novamente foi cumprimentá-lo, dizendo.
- O senhor realmente recebeu um dom de Deus, de tocar violão tão bem!
Todos esperaram, aguardando a humilde resposta de que “Não, eu não toco tão bem assim gurizada, não é pra tanto.” Porém, a resposta que veio certamente surpreendeu a todos.
- EU TOCO BEM MESMO! – Mas, afinal de contas, um gênio como ele não deveria preocupar-se com falsa modéstia. Ainda assim anunciou, suas últimas palavras. – E, gurizada, só digo uma coisa para vocês, ta? Sejam como eu. Sejam como eu...
E foi-se embora. Antes disso, anunciando seu real nome, Abilhão da Viola.
João Lucas G. Franco

